3 de ago de 2010

Oímpíadas de Língua Portuguesa

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A ameixeira-do-japão

Érico Verissimo

Em 1912 chegou-me, primeiro através dos comentários dos mais velhos e depois nas páginas das revistas do Rio de Janeiro, a notícia do naufrágio do Titaníc. Profundamente comovido, sentei-me na borda do canteiro onde estava plantada a ameixeira-do-japão e ali fiquei, calado e imóvel, tentando recriar no espírito a horrível tragédia que havia devorado mais de mil vidas humanas. Eu "via" o transatlântico afundando no negror gelado da noite e do mar: o pequeno grupo de passageiros na proa (ou na popa?) cantando um hino religioso - "Mais perto quero estar, ó meu Deus, de ti!". E me fazia perguntas para as quais não encontrava resposta. Se estava no poder de Deus ter evitado a catástrofe, por que Ele não o fizera? Afinal de contas, que queria de nós o Supremo Arquiteto do Universo, que, segundo um símbolo maçônico, tinha o olho triangular? Eu me imaginava a bordo do transatlântico na noite fatal. Via o enorme iceberg no meio do oceano e o paquete aproximar-se dele, inescapavelmente. Creio que naquela noite tive um pesadelo em que uma montanha de gelo crescia diante de meu pavor.


[...]


Pouco mais de um ano após essa tragédia marítima, eu seria testemunha dum dramático incidente ocorrido ali mesmo na nossa cidade.


Em fins de 1913 um tenente do Exército Nacional recém"chegado a Cruz Alta foi proposto por um colega de armas para sócio do Clube Comercial, baluarte da burguesia local. Não sei por que motivo não foi aceito. O fato causou sensação na cidade. Falou-se em represálias da parte da guarnição federal contra a sociedade. Nada, porém, aconteceu. Chegou dezembro, os jasminsdo-cabo floresceram no nosso pequeno jardim. Seu perfume era para mim o prenúncio de acontecimentos agradáveis: o meu aniversário (muitos presentes), o Natal (idem) e finalmente as férias de verão.


Os membros de nossa "melhor sociedade" esperavam com alvoroço o reveillon do Comercial. As mulheres mandavam fazer vestidos, compravam sapatos, preparavam as suas jóias, discutiam penteados. Os homens tiravam dos guarda-roupas seus smokings recendentes a naftalina e mandavam limpá-las e passá-las a ferro. Havia no ar, em estado quase palpável, uma expectativa alegre. Chegou finalmente a noite de 31 de dezembro. Uma banda de música, como de costume, foi contratada para tocar no baile. Começaria inteira, na hora da polonaise inicial, e depois seria reduzida ao que era conhecido como "um terno", que ficaria marcando o compasso das danças até o final da festa. O grande momento seria à meia-noite, hora em que o ano de 1914 entraria festivamente ao som de canções, gritos, vivas, abraços, beijos,votos, esperanças, frenéticos atropelos...


Meu irmão e eu obtivemos permissão de nossos pais para ir "espiar" o baile, confiados à guarda de D. Afonsina Masson, mãe de nossa vizinha D. Zaíra.Tínhamos uma grande afeição por essa senhora de cabelos grisalhos, católica fervorosa, suave de voz e gestos. De nosso canto, no vestíbulo do clube, junto da porta do salão de festas, vimos nosso pai marcar a polonaise - bem como faria o dr. Rodrigo Cambará no Clube Comercial de Santa Fé, numa cena do romance que eu iria escrever quase quarenta anos mais tarde. Sebastião Verissimo, que ostentava um cravo branco na botoeira de seu smoking, pareceu-me o "dono da festa".


Depois da polonaise começaram as danças. Meus olhos percorriam o salão, viam as mães de família sentadas nas cadeiras, ao longo das quatro paredes, dizendo-se segredinhos por trás dos leques, olhando com orgulho, apreensão ou esperança para as filhas casadouras que valsavam com alguns dos "bons partidos” da cidade. Uma atmosfera perfumada enchia o recinto iluminado.


Muitos olhavam repetidamente para seus relógios, esperando impacientes o fim do ano. Longe, nos bairros pobres estouravam foguetes prematuros. E eis que, quando os músicos fizeram uma pausa, ouviu-se um tiroteio cerrado e próximo, identificado pelos entendidos como produzido por armas de guerra. Balas começaram a zunir por cima das cabeças das pessoas que se encontravam na área descoberta do clube. Os que olharam para os fundos do terreno da sociedade que davam para outra rua, viram o clarão das detonações. Os projéteis cravavam-se nas paredes posteriores do edifício, estilhaçavam vidraças. Gerou-se então o pânico. Os homens e as mulheres que estavam na área compreenderam que o Comercial estava sendo alvo de um ataque á mão armada. A confusão se generalizou, começaram os atropelamentos, mulheres gritavam, algumas desmaiavam, as pessoas que caíam ao chão eram pisoteadas pelas que fugiam às cegas. A gritaria era assustadora. Vi um homem atirar-se duma das sacadas fronteiras do edifício, caindo sentado na calçada. Outros o imitaram. Meu coração começou a bater mais forte, ao ritmo do medo. D. Afonsina, segurando nossas mãos, rompeu a correr escadas abaixo, enquanto murmurava uma prece, e fomos buscar refúgio numa casa da vizinhança. Pernas frouxas, o coração na garganta, mas nem por isso menos curioso, aproximei-me duma janela e por uma fresta em suas cortinas fiquei olhando a fachada do Comercial. Vi um homem com a mão ensangüentada, uma dama gordíssima, muito conhecida na nossa comunidade, caminhando descabelada e manca, pois tinha perdido no entrevero um de seus sapatos. Pessoas continuavam a saltar das sacadas.


O tiroteio durou mais alguns minutos. Em breve já se sabia que os assaltantes eram soldados do Regimento de Infantaria local, comandados por um tenente que os embriagara antes de levá-los ao criminoso ataque. Horas mais tarde chegou-nos a notícia de que o delegado de polícia, Antoninho Pereira, descera até o fundo do clube para averiguar do que se tratava e fora assassinado com um balaço de Mauser. Ouvi uma voz dizer na penumbra daquela sala onde estávamos refugiados: "É o fim do mundo!". Pensei então nos meus pais. Que lhes teria acontecido?


Terminado o tiroteio, o tenente marchou com seus comandados até à frente do edifício do clube, como se quisesse invadir-lhe o recinto.


Sebastião Veríssimo postou-se no alto da escada que levava ao vestíbulo e, engasgado de indignação, dirigindo-se ao oficial e seus comandados, bradou: "Corja de covardes e canalhas! Vocês só têm coragem para espingardear mulheres, velhos e homens desarmados!". Os poucos varões que haviam permanecido dentro do clube arrastaram meu pai para dentro do prédio. O tenente, depois de gritar bravatas, levou seus soldados, rua do Comércio acima, numa formatura que pouco ou nada tinha de militar.


Nenhuma das pessoas presentes ao baile foi atingida pelas balas, mas muita gente se feriu no atropelo. Várias mulheres tiveram ataques de nervos.


Era já madrugada quando meu irmão e eu chegávamos à nossa casa. D. Bega, que arrumava as camas, murmurava: "É melhor a gente ir viver na campanha, onde essas barbaridades não acontecem". O que nenhum de nós sabia era que ela viveria o tempo suficiente para ter notícia de duas guerras mundiais, sendo que a segunda custaria a vida de 30 milhões de seres humanos, dos tempos de concentração e extermínio nazistas, do massacre dos judeus e dos bombardeios de Dresden, Hiroshima e Nagasaki.


Érico Veríssimo, Solo de clarineta. 20ª ed. São Paulo, Companhia das Letras, v. 1,2005, pp. 106-109.

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